Quebra de bancos

O mercado financeiro se desenvolveu de tal forma que os bancos hoje não se limitam à clássica atividade de emprestar dinheiro

(Por Lincoln Pinheiro Costa)
 
 
Amigo leitor, talvez fosse já tenha se deparado com situação parecida com esta: depois de se aprofundar em um assunto, especialmente de sua área profissional, pensa que o saber adquirido é de conhecimento geral. E se surpreende ao perceber que o senso comum considera que o certo é exatamente o contrário.

“O Estado não deve socorrer um banco, deve deixá-lo quebrar como uma outra empresa qualquer”. O que você acha desta sentença? Não responda ainda.

É possível que você já tenha ido a uma agência bancária apenas para renovar um cadastro e que o gerente tenha lhe oferecido uma série de produtos: seguros, previdência privada, título de capitalização e outros papéis que você desconhece.

O mercado financeiro se desenvolveu de tal forma que os bancos hoje não se limitam à clássica atividade de emprestar dinheiro.

Crédito que os bancos têm a receber de empréstimos feitos a quem financia imóvel, carro, moto, aparelho de tv, aparelho de celular, etc pode ser incorporado a um título e vendido a outros bancos ou repassado aos clientes como opção de investimento.

Toda essa complexa engenharia financeira possibilita uma colossal especulação, permitindo ganhos – e também perdas – estratosféricas, fazendo a riqueza representada por esses títulos se descolar da economia real.
Se você, leitor, for proprietário de um restaurante e um concorrente seu quebrar, é possível que você herde os clientes do falido.

Na quebra de um banco a situação é diferente. Provoca-se um efeito dominó que leva à falência outros bancos, bem como empresas do setor produtivo, fazendo a economia entrar em crise. Globalizados que estão os mercados, a crise rapidamente rompe fronteiras, cruza oceanos e atinge outros países.
Mas é eticamente justificável usar dinheiro público para salvar bancos?

Atribui-se grande parte da perda de popularidade do presidente Obama à iniciativa de seu governo de injetar dinheiro no sistema financeiro sem punir os banqueiros e executivos que provocaram a grande crise de 2008.
Por outro lado, acredita-se que se o Estado tivesse impedido a quebra do banco Lehman Brothers a crise não teria sido tão profunda.

No Brasil, após a quebra dos bancos Econômico, Nacional, Bamerindus e outros menores, a regulação do setor bancário foi ampliada.

Isto, contudo, não impediu a recente quebra do Banco Panamericano e nem evitou o aperto aos pequenos bancos em 2008, oportunidade em que os bancos oficiais os socorreram, comprando parte de seus ativos ou de suas ações.

Para se evitar que o Estado tenha que socorrer os bancos, a melhor política é exercer um forte controle sobre a atividade financeira, seja restringindo a circulação do capital especulativo e as operações com derivativos, seja exercendo uma mais eficaz fiscalização sobre a atividade bancária, haja vista que os relatórios emitidos por auditorias independentes e agências de risco não têm se mostrado confiáveis.

Mas para que o Estado exerça essa fiscalização é preciso fortalecer os órgãos responsáveis, tais como Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários – CVM e Superintendência de Seguros Privados – SUSEP, ou seja, criar cargos de auditores e analistas, fazer concurso e pagar salário que atraia bons profissionais.
Essas medidas são ferozmente combatidas justamente pelo mercado financeiro e pela mídia que recebe seus anúncios. Querem um estado fraco para poderem agir sem fiscalização.

Reflita sobre isso!

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