A Crise da Crônica Esportiva

Grandes cronistas já passaram pela crônica esportiva, escrita ou falada
  
 
O jornalismo de qualidade – até mesmo o jornalismo esportivo - se aproxima da arte literária.

Grandes cronistas já passaram pela crônica esportiva, escrita ou falada.

Pegar um acontecimento futebolístico e dele fazer uma arte literária engrandece não só o esporte, mas também a literatura.

Nos últimos tempos essa arte está cada vez mais rara na crônica esportiva.

Os cronistas de outrora, que tinham a habilidade de produzir bons textos, comentários inteligentes e que por vezes emocionavam o público perderam espaço para ex-jogadores e ex-árbitros.

Quem se anima a assistir a uma partida de futebol na TV sem acionar a tecla “mudo” do controle remoto tem que se preparar para ouvir um festival de besteiras, vulgaridades, preconceitos, xenofobismo, bajulação e sandices sem fim ditas “pelos que conhecem porque já estiveram lá”.

Mas qual o objetivo de se substituir cronistas esportivos por ex-jogadores? Economia na folha de pagamento? Aposta que celebridades trazem audiência? Menosprezo pela inteligência do telespectador?

Creio que haja tudo isso no cálculo dos responsáveis, mas não só.

O ex-jogador na função de comentarista é a garantia de que o assunto não ultrapassará os estreitos limites da trajetória da bola nos pés dos jogadores, ou seja, da técnica e da tática; ex-jogador não oferece o risco de um cronista, não traz para o telespectador o perigo da literatura, da reflexão, dos questionamentos. Comentário de ex-jogador é a certeza de que futebol é só a bola e não há nada que interfira no resultado a não ser o desempenho dos jogadores e dos treinadores.

E qual o papel de comentarista de arbitragem?

Por muito tempo pensei que fosse apenas uma recompensa pelos serviços prestados aos times midiáticos.

Deveras, os mais notórios comentaristas de arbitragem têm um histórico de resultados fabricados para os times do “The Establishment”.

Mas depois de uma maior reflexão conclui que tais comentaristas cumprem outra função social: zelar pela manutenção do padrão brasileiro de arbitragem.

A arbitragem nacional, que tem manipulado campeonatos ao longo da história, caracteriza-se pelo protagonismo, comparada à arbitragem estrangeira; árbitros brasileiros não deixam o jogo correr; são pródigos na distribuição de cartões; gostam de mostrar autoridade; gostam de aparecer; ficam lisonjeados quando chamados de “disciplinadores”.

Os comentaristas de arbitragem da TV atuam para manter este padrão, pois é este padrão que permite a manipulação de resultados pelos donos do futebol brasileiro.

Tais comentaristas não gostam da arbitragem internacional, que consideram frouxa, “que não coíbe a violência”. Na verdade, a indignação dos comentaristas é que a arbitragem internacional não está tão sujeita à manipulação como a brasileira.

Portanto, a função dos comentaristas de arbitragem é passar o recado dos patrões: “estamos de olho”, não fujam ao nosso controle, não queiram ser independentes.

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