Investimento público e exclusão social

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em sua origem não tinha o “S” de Social. A mudança ocorreu em 1982, de modo que o banco passou a implementar linhas de investimento social.

Esse paradigma, todavia, precisa ser reformulado: o BNDES não deveria investir no desenvolvimento econômico e destinar algumas migalhas ao desenvolvimento social, mas  sempre que investir no desenvolvimento econômico estar atento ao reflexo no desenvolvimento social.

Ocorre que muitos investimentos econômicos do referido banco público têm, contraditoriamente, provocado a exclusão social.

Os estádios que estão sendo reformados para a Copa de 2014 com financiamento do BNDES – e transformados em “arenas” – estão, em suas inaugurações, revelando a face perversa da exclusão social patrocinada com dinheiro público.

Em Fortaleza, na primeira partida realizada no estádio reformado, o público foi muito inferior à capacidade, devido aos preços exorbitantes dos ingressos. E as despesas atingiram 68% da renda, restando menos da terça parte para os clubes, os verdadeiros donos do espetáculo. Por isso, os dois maiores times do Ceará já avisaram que não mandarão seus jogos lá.

A reforma do Mineirão custou aproximadamente 700 milhões de reais. O estado de Minas Gerais entrou com cerca de 40 milhões e o restante foi todo financiado pelo BNDES.

O modelo escolhido para a execução da obra e, posteriormente, para a administração do estádio, melhor dizendo, da arena, foi da parceria público-privada (PPP).

Do montante financiado, cerca de 250 milhões coube ao parceiro privado – Consórcio Minas Arena – e o restante ao estado de Minas Gerais, o parceiro público. O parceiro privado não investiu um centavo sequer com capital próprio.

Quem assumiu a administração do Mineirão foi o parceiro privado.
Para isso, além das receitas que está auferindo com o aluguel do ‘equipamento’, terá assegurada uma receita mensal fixa, corrigida anualmente, de três milhões e setecentos mil reais, paga pelo estado de Minas Gerais durante 25 anos.

A incompetência gerencial do parceiro privado ficou comprovada na venda de ingressos para o jogo de inauguração, nas falhas estruturais da obra e no péssimo tratamento ao público que pagou os caríssimos ingressos para assistir à partida.

O borderô, divulgado com inconsistências, revelou que, da renda bruta da bilheteria, apenas 47,08% ficam com os donos do espetáculo.

Esse custo elevado para se jogar no Mineirão fez com que o maior time de Minas Gerais decidisse não mandar seus jogos lá, permanecendo no estádio Independência, onde tem participação nas receitas de bares, estacionamento, camarotes e placas de publicidade.

Com isso, o Mineirão estará fadado a se tornar um ‘elefante branco’, ficando a conta para os contribuintes mineiros pagarem.

Na Minas Gerais do século XVIII, Tiradentes liderou uma revolta contra a Derrama; na Minas Gerais do século XXI os mineiros parecem resignados com toda essa lama.


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